luanares mariposeantes

"luar luana de ana ar luz assim nasce luana … luanar" E. Lara

Mês: fevereiro, 2012

Um poema

que não existe

é um silêncio

entre uma nota

e outra

o desespero dos dedos

que não podem

gritar

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A história do menino Jesus

Jesus já estava acordado há um bom tempo sem saber exatamente quanto. Talvez houvesse passado horas. Estava encolhido no canto do seu quarto, as lágrimas de medo escorrendo pelo rosto, o coração parecia que ia saltar pela boca, o grito amargo atravancado na garganta. Jesus não agüentava mais o desespero de não poder fazer nada.

Sentiu a casa inteira tremer quando o pai passou pela porta. Agora a Mãe já não mais gritava, apenas chorava. Aquele choro baixinho, soluçado, duro. O choro dos covardes, dos impotentes, o choro de quem já não tem mais forças nem pra chorar.

O menino agora se levanta muito lentamente, tem medo ainda de que o pai volte e termine por fazer pior que já fez. Ao sair do seu quarto a primeira coisa que se depara são as flores pisoteadas, misturadas com cacos de vidro pelo chão. Um ódio tão grande cresce em seu peito ainda tão pequeno e ele corre para o quarto da mãe pensando “Senhor por que tu me abandonaste?”

Se depara com uma mãe machucada, tão ferida quanto as flores pisoteadas, tão quebrada quanto os móveis da casa e tão sangrada quanto o seu coraçãozinho. A mãe não o vê. Então ele se deita a seu lado e a abraça e eles choram com a dor que só a alma conhece e com o amor que só os mais elevados espíritos conseguem sentir. E se pedem perdão no som daquele choro agora alto, o menino com a culpa de não ter socorrido a mãe, a mãe por se deixar naquela condição de vítima.

A dor vai se abrandando com a chegada da manhã. Eles acordam com as batidas na porta e a voz da vizinha que ouviu a briga durante a noite e sabia que aquilo não acontecia pela primeira vez. Jesus abre a porta. Ao vê-lo ela estende a mão com a travessa de bolo de chocolate e o menino recomeça a chorar. Ela o chama pros seus braços quentes de avó que sabe a hora em que um neto ou um filho precisa de carinho. “Jesus, Deus não esqueceu de você, eu estou aqui agora e vim pra ajudar vocês.”

Ela pede pra ele chamar a mãe e depois de conversarem eles se ajoelham diante da imagem da Virgem da Conceição, uma das poucas coisas que sobraram inteiras na casa, e aquela velha senhora lhes ensina o poder da oração sincera. Depois eles se levantam sentindo-se abençoados e vão arrumar as malas. É um novo tempo pro menino Jesus. Dona Cotinha lhe conta que mesmo Jesus o Nazareno teve que fugir da fúria de Herodes pro Egito.  E agora ele e a mãe, terão a chance de aprender com a ajuda dos anjos do céu e de anjos de carne como aquela velhinha espírita a serem responsáveis por seus próprios destinos e a serem felizes.

Caderno de Sonhos

Cena 1

O dia de belas cores

É inverno. O tempo está seco e um Sol pálido brilha no céu. A moça caminha depois de descer do ônibus. Algo dentro dela brilha. E mesmo sem saber de onde vem aquela tão boa sensação de plenitude, aquele estado sereno de estar e ser em todas as coisas e todas as coisas serem e estarem dentro dela, ela caminha… caminha sabendo que aquele é um dia bom.

Cena 2

A chuva

Quando se aproxima de seu destino ela avista o ipê rosa. Como não vê-los tão lindos com seus pompons cor-de-rosa suspensos no ar, acenando com suas pequetitas flores, pequenos milagres que caem formando uma tempestade de suavidade e beleza. A culpa é dos periquitos farrueiros, tão animados periquitiando no topo do ipê, derrubando as florezinhas de suas nuvens. Uma chuva de flor enfeitando o chão, como um grande tapete marrom e rosa que se estende até os confins de um poema.