luanares mariposeantes

"luar luana de ana ar luz assim nasce luana … luanar" E. Lara

Mês: março, 2012

A menina no espelho

Quando acordou naquela manhã não sabia quem era… Sentia como se uma brisa de outono houvesse passado e levado algo, deixando tudo assim meio vago, sem saber quem ou como…

“Estranho”, foi o que pensou quando se olhou no espelho e se deu conta de que ali não havia ninguém, só uma imagem desbotada que não lhe dizia coisa alguma. “Olá”, tentou dizer, mas aquela estranheza refletida no fundo dos seus olhos não fazia nada, só ficava lá olhando de volta.

As recordações vieram aos poucos e então lá estava, sentada no meio de um jardim vendo mil imagens dela mesma. Vinha até si própria em mil faces que pareciam sê-la, mas não eram. E cada ela queria um pouco de si e lhe puxavam pedaços e faziam-na perder-se, até que ela desapareceu. Então já era nenhuma e já não era nem ela.

A menina ali no espelho parecia não ter nada a dizer, mas queria dizer algo, algo não dito, algo por dizer, mas que acabou se esquecendo. Era tanto barulho que em nenhum canto o silêncio podia cantar.

Vagou pela casa procurando uma pista, algum sinal deixado por ela mesma de onde poderia se encontrar. O coração começou a pesar e um vazio foi tomando conta. Sentiu o chão gelado sob os pés e então um lampejo veio a mente e ela chorou. Porque queria voar.

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arranquei-te de mim

como quem provoca um aborto

precário e sofrido.

sangrei,

por lágrimas

sangrei por culpa

sangrei por ódio

e sangrei por medo

e de tanta dor

me tornei estéril

histórias que o vento me conta

Era uma vez essa menina que tinha tanto amor vertendo do seu coração, que ela mesma não entendia e acabava achando que era tristeza. Nem sempre as coisas foram assim pra ela. Ela era uma menina alegre, mas as pessoas começaram a se fazer de desentendidas daquele sentimento tão grande e por isso com o tempo ela começou a ficar triste. Mais e mais triste.

Naqueles tempos as pessoas começaram a se esquecer lentamente do que era amor, mas todos se fingiam de muito entendidos, muito sabidos e quando ela lhes perguntava “você entende?”, eles acenavam que sim com a cabeça.

Pobre menina… Acabou desentendida de si mesma e posta sob vigilância para que não pudesse fazer nem dizer nada daquelas emoções. Ela fingia que não se importava, mas a tristeza começou a fincar tão intrinsecamente que ela se contorcia de dar pena. Tomaram-na por louca.

Passaram a dopá-la e por certo tempo ela achou que aquilo era bom e se deixava a mercê de Ninguém que aparecia diariamente com sua dose de Nada. Ela deixou de sentir tudo e já não sentia mais. Nem dor, nem amor. Mas aí ela começou a sonhar. Sonhos que depois veio a descobrir que não eram sonhos, mas lembranças.

E em vez de nada ela passou a sentir um vazio enorme, tão grande que ela pensou que consumiria todo o amor e toda a dor juntos.

E teve medo. E teve coragem.

Um dia, como um dia qualquer, ela disse que não precisava mais de Nada e que sozinha descobriria de novo a dor e que dessa dor nasceria de novo o amor. Mas ninguém queria ouvi-la e lhe buscaram uma camisa de força. Mas ela correu, e aquela coragem lhe deu tanta alegria que começou a dançar pela rua e dançando sentiu que alguma coisa lhe transbordava, uma vontade de não sei o quê, que a levou rodopiando num pé de vento, se derramando por todas as partes. E quando viu, aquilo já era uma rebelião de dançarinos loucos.

Ela já não tinha mais medo e desconhecia o ódio, mas o ódio se aproximava cada vez mais e ela só transbordava e transbordava, sentindo-se cada vez mais cheia. Quando foram apanhá-la já não estava mais lá. Ela se havia liberto por completo, se derramado inteira e nada dela se juntou novamente.

Ela escorreu pelas ladeiras, pelos esgotos, evaporou e desceu com a chuva. E as pessoas que dançavam ainda pelas ruas sentiram sede e beberam a menina sem saber. E dentro de cada louco nasceu uma coisa nova que nem era nova, mas esquecida por tanto tempo, que passou a ser desconhecida, como uma história muito antiga.

Até o dia em que alguém que vivera tempo suficiente pra se lembrar reconheceu que aquilo era o amor e então se soube por que antes ninguém era capaz de compreender.

sentir coisas que não tem nome

ao amigo que tem o dom de ser poesia

se fosse pelo senso comum
eu diria que é saudade
mas saudade é uma coisa apertada
e aqui tudo é muito livre
 
podia dizer que é tristeza
ou que é simplesmente alegria
mas eu acho que é paz
que é o equilíbrio das coisas
 
como é que a gente consegue
amar uma coisa
assim desse jeito?
 
amar como se ama uma nuvem
ou um raio de sol
que quando bate nos campos verdes
faz tudo doirar
 
amar assim como se ama
o cheiro da chuva
ou o cantar do vento
a sombra da árvore
o sorriso de uma criança
 
amar solitária
como uma águia na mais alta montanha
que vê o Sol se pôr
e a Lua nascer
 
que sabe que só pode sentir-se assim
aquele que compreende
que as amarras limitam o Ser
 
o que Ser amor
é ser livre.