luanares mariposeantes

"luar luana de ana ar luz assim nasce luana … luanar" E. Lara

Categoria: contos

histórias que o vento me conta

Era uma vez essa menina que tinha tanto amor vertendo do seu coração, que ela mesma não entendia e acabava achando que era tristeza. Nem sempre as coisas foram assim pra ela. Ela era uma menina alegre, mas as pessoas começaram a se fazer de desentendidas daquele sentimento tão grande e por isso com o tempo ela começou a ficar triste. Mais e mais triste.

Naqueles tempos as pessoas começaram a se esquecer lentamente do que era amor, mas todos se fingiam de muito entendidos, muito sabidos e quando ela lhes perguntava “você entende?”, eles acenavam que sim com a cabeça.

Pobre menina… Acabou desentendida de si mesma e posta sob vigilância para que não pudesse fazer nem dizer nada daquelas emoções. Ela fingia que não se importava, mas a tristeza começou a fincar tão intrinsecamente que ela se contorcia de dar pena. Tomaram-na por louca.

Passaram a dopá-la e por certo tempo ela achou que aquilo era bom e se deixava a mercê de Ninguém que aparecia diariamente com sua dose de Nada. Ela deixou de sentir tudo e já não sentia mais. Nem dor, nem amor. Mas aí ela começou a sonhar. Sonhos que depois veio a descobrir que não eram sonhos, mas lembranças.

E em vez de nada ela passou a sentir um vazio enorme, tão grande que ela pensou que consumiria todo o amor e toda a dor juntos.

E teve medo. E teve coragem.

Um dia, como um dia qualquer, ela disse que não precisava mais de Nada e que sozinha descobriria de novo a dor e que dessa dor nasceria de novo o amor. Mas ninguém queria ouvi-la e lhe buscaram uma camisa de força. Mas ela correu, e aquela coragem lhe deu tanta alegria que começou a dançar pela rua e dançando sentiu que alguma coisa lhe transbordava, uma vontade de não sei o quê, que a levou rodopiando num pé de vento, se derramando por todas as partes. E quando viu, aquilo já era uma rebelião de dançarinos loucos.

Ela já não tinha mais medo e desconhecia o ódio, mas o ódio se aproximava cada vez mais e ela só transbordava e transbordava, sentindo-se cada vez mais cheia. Quando foram apanhá-la já não estava mais lá. Ela se havia liberto por completo, se derramado inteira e nada dela se juntou novamente.

Ela escorreu pelas ladeiras, pelos esgotos, evaporou e desceu com a chuva. E as pessoas que dançavam ainda pelas ruas sentiram sede e beberam a menina sem saber. E dentro de cada louco nasceu uma coisa nova que nem era nova, mas esquecida por tanto tempo, que passou a ser desconhecida, como uma história muito antiga.

Até o dia em que alguém que vivera tempo suficiente pra se lembrar reconheceu que aquilo era o amor e então se soube por que antes ninguém era capaz de compreender.

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A história do menino Jesus

Jesus já estava acordado há um bom tempo sem saber exatamente quanto. Talvez houvesse passado horas. Estava encolhido no canto do seu quarto, as lágrimas de medo escorrendo pelo rosto, o coração parecia que ia saltar pela boca, o grito amargo atravancado na garganta. Jesus não agüentava mais o desespero de não poder fazer nada.

Sentiu a casa inteira tremer quando o pai passou pela porta. Agora a Mãe já não mais gritava, apenas chorava. Aquele choro baixinho, soluçado, duro. O choro dos covardes, dos impotentes, o choro de quem já não tem mais forças nem pra chorar.

O menino agora se levanta muito lentamente, tem medo ainda de que o pai volte e termine por fazer pior que já fez. Ao sair do seu quarto a primeira coisa que se depara são as flores pisoteadas, misturadas com cacos de vidro pelo chão. Um ódio tão grande cresce em seu peito ainda tão pequeno e ele corre para o quarto da mãe pensando “Senhor por que tu me abandonaste?”

Se depara com uma mãe machucada, tão ferida quanto as flores pisoteadas, tão quebrada quanto os móveis da casa e tão sangrada quanto o seu coraçãozinho. A mãe não o vê. Então ele se deita a seu lado e a abraça e eles choram com a dor que só a alma conhece e com o amor que só os mais elevados espíritos conseguem sentir. E se pedem perdão no som daquele choro agora alto, o menino com a culpa de não ter socorrido a mãe, a mãe por se deixar naquela condição de vítima.

A dor vai se abrandando com a chegada da manhã. Eles acordam com as batidas na porta e a voz da vizinha que ouviu a briga durante a noite e sabia que aquilo não acontecia pela primeira vez. Jesus abre a porta. Ao vê-lo ela estende a mão com a travessa de bolo de chocolate e o menino recomeça a chorar. Ela o chama pros seus braços quentes de avó que sabe a hora em que um neto ou um filho precisa de carinho. “Jesus, Deus não esqueceu de você, eu estou aqui agora e vim pra ajudar vocês.”

Ela pede pra ele chamar a mãe e depois de conversarem eles se ajoelham diante da imagem da Virgem da Conceição, uma das poucas coisas que sobraram inteiras na casa, e aquela velha senhora lhes ensina o poder da oração sincera. Depois eles se levantam sentindo-se abençoados e vão arrumar as malas. É um novo tempo pro menino Jesus. Dona Cotinha lhe conta que mesmo Jesus o Nazareno teve que fugir da fúria de Herodes pro Egito.  E agora ele e a mãe, terão a chance de aprender com a ajuda dos anjos do céu e de anjos de carne como aquela velhinha espírita a serem responsáveis por seus próprios destinos e a serem felizes.