luanares mariposeantes

"luar luana de ana ar luz assim nasce luana … luanar" E. Lara

Categoria: Histórias que o vento me conta

Querida Alma,

tantas aventuras tem vivido meu espírito… buscando com fervor me recordar de quem realmente sou. Questionamentos de uma ordem que parece tão simples, mas que me pegam por ainda não ter a dimensão necessária para compreender e aceitar a beleza das contradições do mundo material. Será que sou assim tão diferente do que penso que sou? E se sou, por que não conseguir ser, tornar-me a mim mesma?

E assim, às vezes por conta de dúvidas várias, acabo me perdendo de mim que ainda não encontrei e esqueço da luz que somos todos nós. Pequenos pontos de luz a formar um deus Sol, pedacinhos de infinito navegando no Universo Vida.

Vida… energia pura manifesta na natureza, que vem e nos abraça quando a gente pensa que menos espera, mas na verdade estava mesmo era procurando ser acariciado pela beleza dos ventos no alto do morro, mergulhar nas águas profundas a procurar o farol que acende do lado de dentro, sentir a firmeza da terra e a segurança sutil que traz todas as mudanças, e do fogo, afagarmo-nos no calor da amizade.

Do alto da Serra da Bodoquena, a brisa sopra segredos do céu para a grama e faz dançar as flores nas copas das árvores, pequenos pontos de cores na imensidão verde da mata enquanto as rãs cantam soberbas nos brejinhos a sua canção de transfigurar.

Não entendo muitas vezes porque é tão fácil esquecer de abrir as asas e voar pelos céus através dos olhos, ou por que é tão difícil lembrar que muitas vezes tudo que mais preciso é simplesmente respirar.

E que coisa é levar nossos mundos seja para que mundo a gente for.

Crédito: Ananda Rodrigues

Foto: Ananda Rodrigues

Anúncios

às crianças, passarinhos e andarilhos

Tem uma jasmineiro no caminho da minha casa. Todo dia eu desço do ônibus e ele está lá. Sempre cheio de flores e aromas a me ofertar e a ofertar a quem queira. Às vezes a gente conversa (na verdade eu falo) e me dou conta de quantas lições importantes ele me dá. Só por ser, estar e existir naquele local, nesse momento com toda a sua delicadeza e silêncio.

Há crenças em mim de que ele é mais do que aquela singela e frondosa árvore, onde vez em sempre o vento faz uma visitinha, sabe assim ‘dois dedin di prosa’, pra presentear o passante atento com o inebriante perfume de suas florezinhas. Ao visitante cabe a tarefa não de decodificar qualquer mensagem, mas sentir e permitir que isso lhe diga além dos parcos sentidos.

Imagino que em dimensões onde minha vista ainda não alcança ele deva ser um belíssimo elemental, gracioso e sublime como a pureza da humildade. Graças a ele jasmim é então uma de minhas flores prediletas.

E me permito lembrar de personagens como Zezé que passava tardes inteiras conversando com Xururuco, o seu querido pé de laranja-lima e é uma delícia essa sensação de inocência que se produz aqui dentro, que nem é só dentro e que nem sei onde é.

Quando dobro a esquina já vislumbro os dois com conversinhas ao pé do ouvido. O jasmineiro e o vento. Há dias em que me zango por ciúmes, mas é só de brincadeira porque sei que logo vem o vento me abraçando e me levando pra essa conversinha tão íntima, me envolvendo nessa bruma de doçura infinita.

Tem dias que me finjo de invisível e fico só observando o balançar das suas folhas e todas aquelas florezinhas bailarinas rodopiando no ar até chegarem ao chão. Então penso que elas ficam lá e se misturam de novo as coisas da terra, porque segundo Manoel de Barros as coisas tem que adoecer de terra pra merecer ser chão, e alimentam a vida com a sua pequena consciência que é apenas uma parte da consciência daquele que foi um dia sua casa (o jasmineiro) e que não é outra coisa se não parte também da grande consciência do próprio chão. Acho que como as latas (e mais uma vez me remeto a Manoel) elas também querem virar poesia.

Há dias em que ver as muitas faces da alegria não é fácil, mas ele me acolhe como amigo generoso que é e na maior das simplicidades acalenta meus anuviados pensamentos me levando até as estrelas. A gente fica lá, ouvindo o nada e depois tudo melhora.

Ao Filho dos Ventos

Ah doce amigo do vento…

Sua presença ainda é tao viva

Quando as flores caem lentamente de uma árvore

Ou quando a Lua aparece trsncendente no céu

anunciando uma certeza de liberdade infinita

que essa pobre e limitada mente ainda não é capaz de assumir.

 

Penso tanto se um dia vou reencontrar-te Taliesin…

Cá estou…

um discípulo vago

que espera fervorosamente

que esteja cumprindo a missão que o mestre deixa

e é uma ânsia que não me sai do peito…

 

Ah doce silfo…

As folhas das árvores se embalam em sua melodia

e a mim parece ouvir a própria sinfonia das esferas

E já não é mais que a lembrança

da ternura que há em seus olhos

do perfume dos seus cabelos

e do canto inefável que é meu nome nos lábios teus.

 

Juro que por um instante senhor druida

eu correria os céus e os infernos

apenas pra colar o ouvido em teu abraço

e escutar as batidas do teu tambor…

A menina no espelho

Quando acordou naquela manhã não sabia quem era… Sentia como se uma brisa de outono houvesse passado e levado algo, deixando tudo assim meio vago, sem saber quem ou como…

“Estranho”, foi o que pensou quando se olhou no espelho e se deu conta de que ali não havia ninguém, só uma imagem desbotada que não lhe dizia coisa alguma. “Olá”, tentou dizer, mas aquela estranheza refletida no fundo dos seus olhos não fazia nada, só ficava lá olhando de volta.

As recordações vieram aos poucos e então lá estava, sentada no meio de um jardim vendo mil imagens dela mesma. Vinha até si própria em mil faces que pareciam sê-la, mas não eram. E cada ela queria um pouco de si e lhe puxavam pedaços e faziam-na perder-se, até que ela desapareceu. Então já era nenhuma e já não era nem ela.

A menina ali no espelho parecia não ter nada a dizer, mas queria dizer algo, algo não dito, algo por dizer, mas que acabou se esquecendo. Era tanto barulho que em nenhum canto o silêncio podia cantar.

Vagou pela casa procurando uma pista, algum sinal deixado por ela mesma de onde poderia se encontrar. O coração começou a pesar e um vazio foi tomando conta. Sentiu o chão gelado sob os pés e então um lampejo veio a mente e ela chorou. Porque queria voar.