luanares mariposeantes

"luar luana de ana ar luz assim nasce luana … luanar" E. Lara

às vezes

é como se um pequeno gesto

um tímido sorriso

fosse uma carícia íntima.

 

é como se o instante

revelasse a eternidade

do que nunca pode ser.

 

é como se a dor

fingisse que não dói

e tudo ficasse anestesiado assim.

 

é como se a verdade não existisse

e tudo perdesse o sentido…

 

é como… um vazio preenchido.

 

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Verdade verdadeira que for

ainda que se dilacere meu peito em pranto

ainda que doa na carne e no karma

matéria infernal e sublime de todas as coisas

porque não existe o bem e nem o mal

e enquanto não se faz a luz

só existe a treva…

não se aponta o caminho

mas pé ante pé se faz

e o caminhante só tem sua fé

sem garantia de respostas

só a certeza de que busca é infinita

e o caminho é estreito…

 

Nota

Para cada pétala que caia

Para cada folha

Que um amor nasça

Para cada amor que morra

Vou olhar para o céu

Pra tentar me inspirar

Ver se sai algo doce

Bom de se recitar

Algo assim feito mel

Um versinho de luar

Poema de Sol no horizonte

Um conto de estrela no mar

Ode ao navegante

Marinheiro, marinheiro…

Quem me dera poder navegar

Assim no teu mar…

 

Nas noites escuras

Te cobrir com meus cabelos

E te afagar com mil beijos

 

Ter mãos assim para você

Como a brisa suave

Que movimenta as areias do deserto

 

E percorrer cada duna

Descobrir seus oásis…

Velar teu sono até raiar o dia

 

Só pra ouvir seu respirar

Seu mantra sagrado

Uma pura poesia

 

Como a dos grandes mestres

Tão cheia de profundos mistérios…

E silêncios

 

Ai que me dera

Meus olhos nunca cansar

E meus lábios sempre sorrir

 

Embevecidos da insensatez

De querer você

Apenas matéria onírica

 

Vida longa a você que passou

Sorrateiro como o vento de Iansã

Carregando tempestades de emoções

Caminhos

a Juan Pimienta Aho

A doce sinfonia da iniciação não para de soar em sua mente. E traz tanta paz, tanta fé… Pelo caminho se sente apenas uma menina. A febre do desejo do caminho diante dela e eis que se viu em um bosque encantado, protegida de todo mal e tudo que tem a fazer é caminhar.

A Lua Branca no céu a espia por entra as frestas das folhas e seu coração e o dela são um só. Ela sente um contentamento radioso, um frêmito de dançar, cantar, escrever, aprender, ensinar e viver a fluidez de todo o Universo que está dentro e fora dela mesma. A força do Sol e o brilho da Lua…

Então diz ao Estradeiro, “eu quero muito cumprir meu Destino”. Sente finalmente que algo pode florescer, suas sementes estão prontas. Mais que tudo deseja agora invocar o sangue cigano dos antepassados em suas veias. Há algo mais a descobrir sempre e o fim será apenas o começo de si mesma.

O dia finda

meio sem jeito,

como um velhinho brejeiro

daqueles assim romantizados

sentados na varanda

na cadeira de balanço

silenciosos

contemplativos…

 

O dia azulado

que foi alaranjado até rosear

e depois enegreceu.

Tanta nuvem no céu…

Meu Deus quanta nuvem!

 

Todas as texturas

sabores…

Todas as cores

sombras e contornos

um pouco fofas

um pouco ralas

brincando de esconde-esconde

com o Sol.

 

O céu…

esse grande mar

e as nuvens

suas espumas brancas

mornas

pequenos silfos

brincando de nereidas.

Ao Filho dos Ventos

Ah doce amigo do vento…

Sua presença ainda é tao viva

Quando as flores caem lentamente de uma árvore

Ou quando a Lua aparece trsncendente no céu

anunciando uma certeza de liberdade infinita

que essa pobre e limitada mente ainda não é capaz de assumir.

 

Penso tanto se um dia vou reencontrar-te Taliesin…

Cá estou…

um discípulo vago

que espera fervorosamente

que esteja cumprindo a missão que o mestre deixa

e é uma ânsia que não me sai do peito…

 

Ah doce silfo…

As folhas das árvores se embalam em sua melodia

e a mim parece ouvir a própria sinfonia das esferas

E já não é mais que a lembrança

da ternura que há em seus olhos

do perfume dos seus cabelos

e do canto inefável que é meu nome nos lábios teus.

 

Juro que por um instante senhor druida

eu correria os céus e os infernos

apenas pra colar o ouvido em teu abraço

e escutar as batidas do teu tambor…

a roda

enquanto… por enquanto…

tempo tão indefinido

como um até breve

ou um adeus

girou e girou…

para acertar as contas

para os encontros marcados

com o acaso

que nunca existiu

girou e girou…

mas quem vai

sempre fica

no peito

a marca genuína

girou e girou…

pra quem parte

e quem fica

o tempo compasso

da hora infinita

girou e girou…

como antes e depois

como sempre

como nunca

o arcano do equilíbrio

girou e girou…

 

Maria a puta

Maria desde pequena

atormentada pelos santos

que na velha casa

andavam por todos os cantos.

Maria que crescera

cuidando tudo que fazia

porque Jesus sabia de tudo

e contava pra sua mãe.

Era por isso que Maria

passava horas no banheiro

onde a única imagem que via

era sua no espelho.

Maria uma qualquer

perseguida por olhos inertes

que a encontravam

nos seus pensamentos impróprios.

Maria a medrosa

reprimia suas obscuridades

naquele pesado silêncio.

Maria a cansada

de ser arrependida

foi embora levando no braços

de Jesus a estátua fria.

Maria que vaga entre camas

de senhores

também de damas

Maria que já não se lembra mais

De rezar Ave-Maria

na hora em que do ventre pari

o filho que não queria

e logo trata de livrar-se.

Maria a apedrejada

feito Geni machucada

jogada ali na calçada

esperando a hora de ir.